terça-feira, 31 de agosto de 2010

Conto - Meu carro não existe


Bom dia a todos que pararam para ler esta história.

Meu nome é Marcelo, tenho 22 anos e moro com meus pais no Guará, mas acho que estas informações não dizem nada de importante para o que vou contar

Sempre fui do tipo baladeiro, sempre contando os dias pro fim de semana pra curtir balada. Pagode, micarê, mulherada, birita, comigo não tem tempo ruim. E não é me gabando não, mas onde eu marco presença eu causo, fica todo mundo querendo estar por perto de mim, as meninas querendo atenção, e por aí vai. Sou o tipo de cara que faz sucesso onde passa, como se quem tivesse minha companhia fosse um privilegiado.

E para poder aumentar meu cartaz comprei um item que considero básico pra poder ser "o cara", um carro que chame a atenção da galera e que sirva de "matadouro" nas horas vagas (se é que vocês estão me entendendo). Achei, como se tivesse surgido uma ligação feita pelos deuses, um Golf GTI preto, completo e com som potente o suficiente pra chegar nos lugares tocando batidão tão alto que faz meia festa se assustar só pra olhar. Não pensei duas vezes na hora de levá-lo pra casa e começar a ficar louco pra abafar no carango novo.

No primeiro final de semana do carrão novo chamei a galera pra um churras na casa de um colega meu no Lago. A idéia era chegar do início pro meio da festa e botar o carro de porta-malas aberto no meio do gramado pra galera curtir a sonzeira. E sair de lá sabe-se lá que horas.

Eu saía com o carro durante a semana atrás de tunar ainda mais com o carro e percebi que quando passava nas barreiras eletrônicas minha velocidade não era marcada. Passei em vários, várias vezes, e nada. Chegou um momento que decidi que já que não tá marcando vou ignorar e passar reto, sempre achei um saco mesmo ficar freando no meio do caminho... Depois percebi que ninguém me buzinava, ninguém me parava em blitz, ninguém me cobrava estacionamento, parecia uma maravilha que eu não entendia porque estava acontecendo.

Sei que fiquei de bobeira no sábado, tanto que resolvi deixar o carro com a sonzeira ligada do lado de fora, o pessoal ia procurar ver o que era e eu entrava com o carro, bem pra chamar a atenção mesmo. Só que quando cheguei ninguém nem se virou pra olhar, frustrei legal na hora. Deixei o carro fora e chamei o galerê que tava lá dentro pra ver meu carro novo.

Mas todos olharam e disseram que não ouviam nada. Pior, que não viam nada. Disseram inclusive que eu devia ter vindo de ônibus e que tava de história pra fazer média com o pessoal.

Sim, é isso mesmo que você ouviram - ninguém, nem eu , conseguia ver meu carro, ele estava literalmente invisível. Não consigo explicar e nem entender como isso aconteceu, só percebi que não via o carro, mas vi que ainda podia senti-lo, da pior maneira: tropeçando (feio) nele.

Deve ter sido por isso que não estava mais sendo multado nem nada.

Só me restou acostumar à nova realidade, pois pelo menos ainda podia me locomover nele, sem falar que havia gastado uma grana preta nele, além do que não ia conseguir passar pra frente um carro que a pessoa não pudesse ver.

Mas ainda aconteceria vários aborrecimentos, como quando depois consegui convidar ume menina pra sair. Como ela não viu o carro achou que eu estivesse de caô e desistiu de mim dizendo que não queria andar de ônibus. E quando eu contava pra galera? Todo mundo achando que eu estava louco: isso sim me deixava mais louco ainda.

Ter aquele carro já estava perdendo a graça, acabou passando a ser um estorvo também pois as parcelas do financiamento não ficaram nem um pouquinho invisíveis, nem a gasolina que esse carro bebia (e eu achando que Opala era que bebia muito). Até a turma que vivia enchendo minha bola nas festas começou a se afastar daquele cara que inventava que tinha um carro só pra não assumir que tava quebrado e a pé.

De tanta raiva que sentia do abandono que estava passando parei num barzinho um dia desses perto do Ceub e acabei passando um pouco da conta, saindo de lá trocando completamente as pernas, tanto que não lembrava mais aonde estava meu carro. Estava de um jeito que não sabia o que fazer até que bati numa parada de ônibus e encontrei uma menina com um estilo meio largado, tipo roqueirinha revoltada. Pensei em pedir a ela que me ajudasse com o ônibus (pois não fazia idéia de qual pegar) mas percebi que ela estava chorosa, desligada do mundo, parecendo sem vontade - e condições - de querer falar.

Imaginei que pelo jeito dela ela não iria querer me ajudar, então segui reto.

Depois, de manhã, acordei sem me lembrar do que havia acontecido após isso, só me vi acordando num lugar que não conhecia, mas percebi que havia alguém do meu lado: era a menina da parada. Ela me contou que eu havia tropeçado no meio-fio, caído violentamente e ficado desacordado. Ela ficou preocupada e chamou o SAMU. E mesmo com tudo que havia acontecido com ela naquela noite ela se dispôr a ficar de acompanhante. Sim, eu havia recebido os primeiros socorros e agora estava aguardando para ser examinado no Hospital de Base. Enquanto isso ela me contou que o (ex)namorado dela havia decidido trocá-la pela amiga dela sem nem avisá-la, e ela estava ali lamentando a vida quando eu apareci e me acidentei. Ela enxugou as lágrimas e passou a ficar preocupar com o meu estado.

Deve ter sido a primeira vez que alguém havia se importado tanto comigo, sem ser por interesse. Depois de sair do hospital peguei o contato da menina e fiquei de ligar pra gente combinar alguma coisa depois, trocar idéias e coisa e tal. Seja como for, passei um tempo em casa de molho na cama me recuperando e pensando no acontecido. Até que no dia que decidi ligar pra ela para agradecer por tudo saí de casa e olhei pro meu carro invisível, como que me conformando e "agradecendo" a ele por ele ter ficado invisível, sem saber direito porque, mas simplesmente agradecendo. Talvez estivesse sentindo que algo novo estaria para acontecer: estar vendo uma outra pessoa, com um carinho diferente, de um jeito que me fazia um bem que minha vida não costumava me fazer quando meu carro era visível.

Um comentário:

  1. Peço a compreensão do senhores leitores deste blog, está é minha primeira incursão em contos e ainda pretendo aprimorar no estilo.

    Agradeço a atenção.

    ResponderExcluir